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MÍDIA, IDENTIDADE CULTURAL NORDESTINA: festa junina como expressão

Por MORIGI, Valdir Jose - Professor do Programa de Pós- Graduação em Comunicação e Informação Doutor em

MÍDIA, IDENTIDADE CULTURAL NORDESTINA: festa junina como expressão


RESUMO
Trata-se de um estudo sobre o evento turístico o Maior São João do Mundo, realizado em Campina Grande, na Paraíba. Tomou-se como material de análise as diferentes narrativas sobre a festa junina (organizadores, barraqueiros, participantes, mídia, entre outros). A partir delas procurou-se mostrar quais os elementos que compõem o imaginário da festa e como são realizadas as mediações e as construções da teia significativa que enreda o discurso sobre a identidade regional e a cultura nordestina. A festa de São João é fruto do hibridismo cultural. Nas diferentes narrativas, a festa junina aparece como a síntese das mediações dos sentidos, expressando a identidade cultural nordestina.

1 INTRODUÇÃO
Para refletir sobre as formas de expressão das culturas regionais e os processos de construção das identidades culturais regionais, é necessário levar em consideração uma série de elementos que fazem parte dessa discussão, entre os quais a lógica da sociedade de consumo e como as práticas culturais regionais foram aderindo à dinâmica da indústria cultural. Tomo como exemplo as festas juninas no Nordeste, particularmente o evento denominado O Maior São João do Mundo, realizado em Campina Grande, na Paraíba, que assumiu uma feição muito própria.
No entanto, apenas constatar e afirmar que a festa junina perdeu o seu caráter rural e o seu estatuto de festa de arraial, com profundos laços identitários com as comunidades locais, regionais, passando a ser mercadoria de consumo, vendida como espetáculo para as massas, não resolve o problema. É preciso ir além dessa constatação e indagar como esse processo é percebido pelos agentes sociais que participam das transformações sociais e como eles elaboram, no plano das significações, as mudanças na festa. A festa junina, por meio das mediações da sua teia significativa, permite a reelaboração imaginária das noções de identidade regional e da cultura local.
Nesse sentido, este artigo procura responder as questões fundamentais: de que modo a festa junina no Nordeste se transformou em um evento turístico, aderindo à lógica da sociedade urbano-industrial e tornando-se produto da indústria cultural, ao modelo dos grandes espetáculos urbanos? Como a festa de São João articula os diversos significados, constrói e expressa os valores das identidades culturais regionais?
A festa de São João no Nordeste tem suas origens rurais, associadas ao ciclo das colheitas agrícolas e ao calendário religioso, possuindo características familiares e costumes tradicionais da cultura regional. Com a evolução histórica, o processo de migração do campo para as cidades e o aumento da industrialização modificaram substancialmente a face das festas, que se transformaram em evento turístico. A festa familiar, no espaço urbano, tornou-se comercial, um espetáculo para as massas, assumindo feições de caráter político, econômico e ideológico. Em Campina Grande, o Maior São João do Mundo, com o formato de um evento turístico, procura incorporar os componentes tradicionais das festas juninas, como se percebe no conjunto de atrações e atividades que se desenvolvem em torno da festa, casamento matuto, noite das fogueiras, danças das quadrilhas, passeio forroviário, entre outros elementos associados, pelo imaginário social regional e local, como pertencentes às raízes da cultura nordestina.
A festa junina, sem dúvida, condensa em torno de si uma série de elementos da cultura local e regional na qual se ancora a tradição nordestina e o seu imaginário. Essa colagem de imagens, sons, ritmos, crenças, valores, representações, práticas e manifestações, teias significativas que o imaginário social abriga juntamente com outros elementos, é proveniente de várias raízes, nem sempre de fácil discernimento e identificação das fontes de suas origens.
A festa junina congrega valores em forma de um sincretismo cultural de diferentes procedências e contextos. Hoje, nos moldes comerciais, a festa é uma espécie de vale-tudo, pois incorporou em seu ritual uma pluralidade de ações, fragmentos de práticas sociais e componentes de diversos universos simbólicos, míticos, rurais, urbanos, tradicionais, modernos, sagrados, profanos, cujas significações entrelaçam-se, acoplando-se e colando-se umas às outras.
Essa mistura de elementos tradicionais, ligados ao passado, e de elementos modernos é um aspecto muito visível através dos personagens que participam da encenação do festejo. Ocorre a estilização do matuto, as roupas do vaqueiro mescladas com a indumentária do sertanejo ou boiadeiro estilo country. Os figurinos femininos apresentam camponeses estilizados – roupas campestres, representando produtos agrícolas, espigas de milho, vestidos com excessos de babados e fitas, que acabaram tornando-se luxuosos em função de tantos adereços que os compõem.
Nesse contexto, a festa junina no Nordeste adaptou ou incorporou uma série de outros elementos que constituem os costumes e as práticas pertencentes às suas origens rurais e à cultura regional e local, expressas através de danças folclóricas, quadrilhas juninas, participação de poetas populares, emboladores de coco, repentistas, forró – dança e a música – entre outras manifestações, definidas pelo conjunto de mediadores da festa como a essência da nordestinidade.
Por isso, a festa de São João é um evento que consegue reunir diversos elementos diferenciados que constituem a cultura nordestina e sintetiza várias manifestações dispersas no interior do imaginário social da cultura regional. Quanto mais ela consegue agrupar e integrar esses elementos sem fugir de suas formas identitárias, mais é considerada autêntica, pois, assim, consegue representar os valores e os sentimentos de pertença do grupo regional. Assim, a festa junina é, no imaginário social, a forma condensada da atualização da identidade cultural regional. No Nordeste, a festa popular e o seu imaginário estão intimamente ligados ao lugar, à região, às raízes locais, aos valores culturais regionais, gerando o sentimento de pertença aos participantes da festa, fazendo-os crer e sentir-se pertencentes imaginariamente a ela e ao seu lugar. Por isso, a idéia veiculada é de que o São João é a marca do Nordeste e dos nordestinos. Ela expressa e manifesta a nordestinidade. Assim, a festa junina é entretecida por um conjunto de narrativas produtoras e mediadoras de sentido que constroem a teia significativa que envolve as noções de identidade regional e cultura nordestina.

2 A FESTA E SUAS NARRATIVAS
Na pesquisa, procurou-se verificar como era construída a teia significativa elaborada pelos mediadores da festa e de que modo tais elaborações de sentido prendem-se ao imaginário social. Em torno da cadeia significativa, entretece-se uma única justificativa principal, o resgate da cultura nordestina. Nela se acoplam todas as demais justificativas, argumentações que sustentam a idéia central, o resgate das tradições, dos costumes culturais e religiosos, das raízes da festa, da originalidade das quadrilhas. Dessa forma, foi possível perceber os diversos mediadores sociais e suas narrativas sobre o evento (organizadores, barraqueiros, participantes, mídia, políticos etc.) envolvidos no processo de construção do imaginário social, buscando, através de ações concretas, estabelecer relações de sentido com a finalidade de fortalecer e amparar os seus imaginários e o imaginário social em relação à identidade cultural do Nordeste e dos nordestinos.
As diversas narrativas da festa (mídia, organizadores, barraqueiros e participantes) apontam visivelmente para o caráter mercadológico do evento. Embora os elementos que compõem a festa estejam mesclados, o Maior São João do Mundo consegue reunir componentes e integrar vários fragmentos da cultura nordestina. Por isso, alguns de seus elementos constitutivos parecem ser autênticos, ou seja, as formas que no ritual foram conservadas ou recuperadas e parecem ter semelhanças com as raízes da cultura e da tradição nordestina são tidas como autênticas e típicas da festa. Por esse motivo, os elementos introduzidos, que sofreram alterações visíveis na ordem do ritual e de seus componentes, são criticados e vistos como descaracterizados da festa e da sua tradição. Assim, quando os participantes referem-se às festas de São João do passado, os seus elementos parecem ainda intactos e, quando se referem à festa no presente, ela aparece descaracterizada.
Nas narrativas dos barraqueiros, por exemplo, o evento deveria contemplar atrações que chamassem a atenção do público e não contratar bandas que se escuta todo dia no rádio, a todo instante. Ou seja, o evento deveria privilegiar os artistas locais e regionais, pois esses cantam e tocam o forró, preservando a tradição e os valores da cultura nordestina.
Assim, percebe-se um nítido descompasso entre o imaginário dos participantes, dos barraqueiros e dos organizadores em relação aos sentidos instituídos pela indústria cultural. Para os agentes do evento, os elementos da festa no passado possuem características familiares, são autênticos, originais, genuínos, estando associados à tradição e aos valores da cultura local. Já a festa no presente configura-se a partir de elementos introduzidos, como a fogueira artificial, a Pirâmide, a padronização das barracas, a estilização das danças nas quadrilhas e outras inovações, elementos associados ao moderno e responsáveis pelo desvirtuamento das tradições nordestinas.
Dessa forma, o Maior São João do Mundo procura incorporar elementos da velha tradição (passado) e, ao mesmo tempo, acrescenta e inventa novas tradições (presente), aderindo aos modismos do mercado, no qual a indústria cultural possui um papel fundamental. Assim, a função principal do evento consiste no resgate das tradições contidas nos rituais da dança do forró, no ritmo da música nordestina, na poesia popular e no seu folclore regional. Esses elementos ritualizados, colocados em movimento pelos grupos folclóricos e pelas quadrilhas através do canto, da dança e das representações coreográficas, possibilitam relembrar o passado e a tradição e, dessa forma, preservar a identidade cultural regional.
Ao narrar o evento, a mídia constrói uma visão de mundo que faz parte do jogo político e de interesses dos grupos locais. Ela reforça o discurso dos dirigentes que exercem a hegemonia do poder local. Em torno dos interesses das facções e dos grupos, ao referendar concepções instituídas do imaginário da festa utilizando o sincretismo cultural, a mídia consegue sintetizar, dando um melhor acabamento, as idéias e os valores que gravitam em torno dela e, disseminando-os, legitima posições já definidas na arena política, seja pelo controle social do imaginário da festa, seja pelo controle do imaginário dos nordestinos e de sua própria imagem.
A narrativa publicitária, por exemplo, refere-se à festa junina como uma síntese do Nordeste, da sua cultura e da sua gente. A festa é a expressão dos sonhos, da esperança e da fé dos nordestinos: (...) sem o que não poderá construir uma sociedade justa e dinâmica, as cíclicas estiagens comprometem a colheita (...) Jamais a fé característica do nordestino. Em todo o Nordeste os santos são comemorados com muita reverência e festa. Eles são reverenciados nas igrejas e com muito forró. (MORIGI, 2001, p. 135).
Ao agirem politicamente, os mediadores midiáticos transformam ideologicamente suas construções imaginárias em saber local sobre si e sobre a cultura local e regional. Assim, para aqueles que questionam a festa e o resgate das suas raízes e da tradição, sempre é possível recuperar a nordestinidade e os valores autênticos da cultura nordestina e do ritual, mesmo que seja via simulação.
O Maior São João do Mundo é um espetáculo para as massas. Assimilando essa nova dimensão de festa-espetáculo, o evento torna-se não apenas um objeto de consumo, vendido às massas, mas também objeto vivo, alvo das atenções dos governantes que se apropriaram da festa como um mecanismo estratégico para a manutenção da ideologia e do poder local. A festa de São João, como um produto cultural regional, mostrou-se capaz de sintetizar, revelar, resgatar as raízes culturais nordestinas.

3 IDENTIDADE CULTURAL NO MUNDO CONTEMPORÂNEO
A identidade cultural pode ser entendida como um conjunto de características comuns pelas quais os grupos sociais se definem como tais. Entretanto, aquilo que um grupo é está intimamente ligado com aquilo que ele não é, isto é, daquilo que o faz diferente um do outro. Dessa forma, identidade e diferença são faces da mesma moeda. A identidade é algo que não existe de forma “natural”. Ela é construída socialmente pelos grupos sociais através de diversos processos discursivos.
Hall (1997), ao analisar a questão da identidade relacionada ao caráter de mudança na modernidade tardia, mostra os vários impactos causados sobre a noção de identidade cultural. As sociedades modernas não possuem centro ou princípio único em torno do qual se organizam, desenvolvem e desdobram as identidades. Conforme o autor (p. 18), “[...] as sociedades na modernidade tardia são caracterizadas pela ‘diferença’; elas são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes ‘posições de sujeito’ – isto é, identidade para os indivíduos”. Assim, o processo de construção da identidade cultural regional, que parecia algo dado e fixo, reveste-se de um caráter mutante e móvel, uma vez que a identidade e os processos de identificação são construções sociais e seguem o mesmo itinerário da cultura.
Dessa forma, no mundo contemporâneo, a noção de identidade como resultado do sentimento de pertença a determinadas estruturas estáveis e fixas é discutida. As identidades modernas, individuais e coletivas, cada vez mais estão sendo fragmentadas, descentradas e descontínuas. As bases sólidas sobre as quais se assentavam e davam sustentação à noção de identidade e aos processos de identificação, como nacionalidade, raça, classe, gênero, religião, língua, sexualidade, etc., tornaram-se vulneráveis diante da nova realidade. Hoje, tais categorias são interceptadas por novos cruzamentos, que têm como linha comum suas ênfases na descontinuidade, na fragmentação, na ruptura e no deslocamento.
Conforme Hall (1997, p. 55): “As culturas nacionais são compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto as nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”. As culturas nacionais e regionais, ao produzirem sentidos sobre a “nação” ou a “região”, com as quais podemos nos identificar, constroem identidades. “Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu passado e imagens que dela são construídas.” Assim, as narrativas sobre a nação e a região formam a identidade nacional e a identidade regional ou uma comunidade imaginada. Essas narrativas são responsáveis pela construção do imaginário social da nação, da região, e pelo sentimento de pertencimento de cada sujeito que o faz amarrar-se a elas. As estratégias representacionais utilizadas no processo de construção do imaginário das identidades culturais são várias. Essas estratégias perpassam por diferentes instâncias produtoras e mediadoras de sentidos, através das histórias da nação ou região contadas e recontadas nas literaturas nacionais e regionais, na cultura popular e na mídia. Hall (1997, p. 56– 57) afirma que estas narrativas: (...) fornecem uma série de histórias, imagens, panoramas, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os trunfos e os desastres que dão sentido à nação. Como membros de tal ‘comunidade imaginada’, nos vemos, no olho de nossa mente, como compartilhando dessa narrativa. Ela dá significado e importância à nossa monótona existência, conectando nossas vidas cotidianas com um destino nacional que preexiste a nós e continua existindo após nossa morte.
As narrativas sobre identidade cultural nacional e regional muitas vezes amparam-se na noção de um povo, folk puro e original de muitas manifestações culturais. Assim, o discurso da cultura nacional “(...) constrói identidades que são colocadas, de modo ambíguo, entre o passado e o futuro. Ele se equilibra entre a tentação por retornar a glórias passadas e o impulso por avançar ainda mais em direção à modernidade” (HALL, 1997, p. 61).
Segundo essa abordagem, a referência ao mito fundacional é outra estratégia da narrativa sobre a cultura nacional. Ela está calcada na história que conta a origem da nação, do povo, dos rituais e seu caráter nacional ou regional. Essas narrativas que se fundam nos mitos fazem referência a um passado tão longínquo que elas se extraviam no tempo “real”, mas se recuperam no tempo mítico. Segundo o autor, tais narrativas geralmente enfatizam as origens na continuidade, na tradição e na atemporalidade. Os elementos essenciais que definem o caráter nacional ou regional continuam imutáveis apesar das mudanças históricas.
Outra estratégia discursiva consiste na invenção da tradição, tal como aponta Hobsbawm e Ranger (1997, p. 9): Tradição inventada’ entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas (...) de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado.
A tradição difere dos costumes, porém a eles está associada, pois quando mudam os costumes alteram-se as tradições. A invenção das tradições é um processo de “(...) formalização e ritualização, caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição” (HOBSBAWM & RANGER, 1997, p. 10). As invenções das tradições estão relacionadas às transformações rápidas e amplas que ocorrem na sociedade tanto em relação à demanda quanto em relação à oferta. Muitas práticas tradicionais da cultura foram modificadas para atender novos interesses de determinados grupos sociais.
Hall (1997) questiona a idéia de que as identidades nacionais tenham sido tão unificadas ou homogêneas quanto as suas representações querem fazer crer. De acordo com o autor (p. 73), a globalização traz algumas conseqüências sobre as identidades culturais, entre elas: As identidades nacionais estão se desintegrando, como resultado do crescimento da homogeneização cultural do ‘pós-moderno global’. As identidades nacionais e outras identidades ‘locais’ ou particularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização. As identidades nacionais estão em declínio, mas novas identidades – híbridas – estão tomando seu lugar.
Um dos argumentos utilizados pelo autor para explicar os impactos da globalização sobre as identidades culturais é que o tempo e o espaço são categorias fundamentais de todos os sistemas de representação. As identidades estão assentadas no espaço e no tempo simbólicos, como o senso de lugar (casa, lar) a sua localização no tempo. Dessa maneira, “(...) a moldagem e a remoldagem de relações do tempo-espaço no interior de diferentes sistemas de representação têm efeitos profundos sobre a forma como as identidades são localizadas e representadas” (HALL, 1997, p. 75). Assim, quanto mais a vida social é mediada pelo mercado global de gostos, estilos, lugares, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação, conectados de forma global, mais as identidades tornam-se liberadas – sem vínculo – de tempos, lugares, histórias e tradições.

4 A FESTA JUNINA COMO EXPRESSÃO DA IDENTIDADE CULTURAL NORDESTINA
A festa junina como expressão da identidade cultural nordestina se manifesta em diferentes processos discursivos. As instâncias produtoras e mediadoras de sentido, em suas narrativas, se referem à festa junina como a combinação e a articulação dos diferentes elementos que fazem parte dela como uma expressão legítima dos valores da identidade cultural nordestina.
Os mediadores jogam com os elementos tradicionais e míticos da cultura, formando um imaginário social que dá sustentação ideológica à ordem política, uma vez que se apela para argumentos político-sociais da festa junina. A festa gera empregos, aumento da arrecadação municipal, podendo estes ser revertidos na melhoria da qualidade de vida da população local. Nessa perspectiva de entendimento, o Maior São João do Mundo é utilizado como etiqueta, e o forró pé-de-serra, ao ser resgatado na lógica do consumo, ao ser reproduzido e massificado no evento junino promovido no Parque do Povo, sai do seu invólucro, torna-se passível de reprodução, atualiza-se como
Intexto, Porto Alegre: UFRGS, v. 1, n. 12, p. 1-13, janeiro/junho 2005.
MORIGI, Valdir Jose
objeto reproduzido e passa a agregar valor ao ser autêntico para atender a um requisito do mercado e da sociedade de consumo.
Assim, o MaiorSão João do Mundo é um locus onde se inserem projetos de vida, sonhos e promessas, como a de se devolver a autenticidade da cultura nordestina e dos seus valores culturais. Essa noção de resgate, por exemplo, aplica-se ao forró pé- de-serra: ao revitalizarem determinados prédios históricos do centro da cidade, ao montarem um arraial, a Casa do Matuto, o Sítio João, a Fazenda Santa Roza, entre outros elementos de ordem mítica que passam a fazer parte do cenário do Parque do Povo, local principal onde acontecem as atividades da festa, os organizadores tentam recuperar uma dimensão imaginária da festa da qual esses elementos são componentes essenciais.
A música e a dança são expressões artísticas, e a sua reprodução enuncia-se da seguinte forma: o forró pé-de-serra, por exemplo, é valorizado e considerado um elemento autêntico da tradição da cultura nordestina, porque segue uma tradição de cantores e compositores nordestinos, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, tidos como clássicos do forró. A autenticidade é concebida aqui como aquilo que está enraizado em uma tradição que identifica esse objeto como sendo sempre igual e idêntico a si mesmo. Como afirma Benjamin (1994, p. 167): “(...) a esfera da autenticidade, como um todo, escapa à reprodutibilidade técnica, e naturalmente não apenas à técnica”. O evento o Maior São João do Mundo é uma espécie de documento-monumento. As narrativas orais, escritas e virtuais que enveredam pelo discurso da tradição, dos valores regionais, da cultura nordestina e da sua identidade procuram mostrar esse aspecto. Contudo, as metáforas utilizadas para narrar a festa, tais como as narrativas da publicidade, da mídia, dos organizadores e dos participantes, não são suficientes. Nesse sentido, a iconografia do cenário do Parque do Povo, através do conjunto de elementos que o compõe, expressa essa materialidade via simulação em forma de réplicas do Arraial, da Vila Nova Rainha, da Fazenda Santa Roza, do Cassino Eldorado, da Catedral, entre outros elementos que representam a tradição da festa (balões, fogueira, bandeirolas...) e da cultura nordestina (forró, chapéus, instrumentos musicais...).
O Maior São João do Mundo é uma festa que se propõe a ser um evento social total, no sentido em que consegue aglutinar, abrigar em torno de si diversos elementos simbólicos da tradição nordestina, entre os quais o forró (a dança e a música). Como exemplo, citaria as constantes inovações que são promovidas no evento a cada ano. Nos últimos anos, foram criados as Ilhas de Forró com o objetivo de lançar uma contrapartida ao mercado no qual predomina o forró eletrônico, incentivando o resgate do forró pé-de-serra, uma vez que, no Parque do Povo, por ser um espaço democrático, vários ritmos são tocados.

Os símbolos culturais presentes no cenário da festa referem-se à tradição da festa e da cultura regional. Assim, no espaço da festa, encontram-se uma série de componentes da cultura sob forma de simulações, como a Casa do Matuto/Sítio São João, Vila Nova Rainha, o arraial, o casamento matuto, que se entrelaçam tanto ao universo simbólico do modo de vida rural quanto ao modo de vida urbano industrial. As barracas de lona, as bandeirolas de plástico, os fogos de artifícios, os outdoors, os painéis e o som eletrônico confundem-se sem se fundir com O Cassino Eldorado, a Pirâmide, a Catedral, os néons, luminosos com ícones que representam as diversas empresas que participam do evento. Nesse festival eclético de imagens, estão os símbolos que representam a cultura regional, como o chapéu do cangaceiro, o candeeiro, a sanfona, as fotos de artistas da terra que compartilham espaço com as imagens dos santos e das crenças que representam os mitos.
Assim, o Maior São João do Mundo é exaltado como um evento monumental. A festa é elevada como o símbolo máximo da tradição e da identidade cultural nordestina. A Catedral, o Cassino Eldorado e a Fogueira Gigante são os monumentos simulados que mais se destacam no Parque do Povo. Ao se privilegiar e recortar tais imagens e elementos da festa, objetiva-se preservar a cultura nordestina.
No imaginário social, a festa junina possibilita o encontro do nordestino com suas raízes, suas tradições culturais e sua identidade cultural. Na atualidade, ela se expressa como um estilo de vida, uma estética, a nordestinidade. Por isso, na narrativa das gerações mais velhas, que identifica a festa como o São João moderno, as inovações da festa confundem-se e são encaradas como uma afronta aos valores culturais tradicionais, mas também como uma forma de atualização dos costumes locais e regionais.
Assim, a função principal do Maior São João do Mundo consiste em resgatar as tradições contidas nos rituais da dança do forró, no ritmo da música nordestina, na poesia popular e no seu folclore regional. Esses elementos ritualizados, colocados em movimento pelos grupos folclóricos e quadrilhas, através do canto, da dança e das representações coreográficas, possibilitam relembrar o passado e a tradição e, assim, preservar a cultura regional.
Entretanto, é possível perceber diversos descompassos nas narrativas dos organizadores: o Maior São João do Mundo pretende ser o evento mais autêntico e original possível, a estampa mais fiel da tradição e da cultura nordestina. Todavia, os próprios narradores reconhecem a dificuldade de realizar esse projeto de resgate da cultura tradicional e dos valores regionais através da festa, pois, paralelo a ele, concorrem outros projetos maiores e mais difíceis de serem enfrentados e combatidos, como a da indústria cultural. A mídia utiliza mecanismos persuasivos que seduzem os consumidores, além de ter um grande alcance na disseminação dos seus produtos. Como contrapor um projeto alternativo que valorize a cultura local e regional sem se aliar a ela?
É nesse embate de forças entre a tradição e a indústria cultural que o hibridismo é formado e os sentidos são construídos. A tradição não consegue ser representada em seus sentidos autênticos, genuínos, originais de forma plena, mas persiste nos imaginários dos agentes sociais. Do outro lado, o projeto modernizador também não atinge a sua hegemonia completa, pois depende das significações dos agentes para se tornar concluso. É no processo interativo, na dialética entre os projetos e seus desdobramentos, que os novos significados da festa são reinventados e instituídos. Essa articulação é constituída pelos elementos de um e de outro que acabam completando-se e complementando-se, formando o tecido cultural híbrido.

5 CONCLUSÕES
Hoje, não é suficiente constatar, descrever e analisar a festa junina como um produto da indústria cultural. Obviamente, ela segue à lógica dos esquemas da indústria cultural, porém sua significação não se esgota nesse código. O Maior São João do Mundo é um evento que faz parte da cultura urbana industrializada do consumo, é uma mercadoria, porém a festa ultrapassa esse estatuto, já que, no plano das significações, das percepções dos seus agentes, ela se apresenta de maneira diversificada.
O Maior São João do Mundo, mesmo ligado à indústria do lazer e da cultura da qual faz parte, é uma tentativa de reconstrução do passado, colocando-se como retrato atual da manifestação tradicional da cultura nordestina. Por isso, a sua preservação é uma forma de resgate das raízes e origens dessa cultura, ao mesmo tempo em que esta revela os traços da nordestinidade no presente. Essas construções imagético- discursivas que consideram a festa junina como representação da cultura e da identidade do Nordeste e dos nordestinos, na qual a mídia exerce um papel fundamental, fazendo circular tais representações, baseiam-se no imaginário tradicional da festa e do seu passado, cujos elementos míticos, religiosos, folclóricos da cultura regional, ao serem inventados e reinventados, sustentam e dão continuidade ao imaginário da festa e à sua significação no presente.
As significações da festa junina no Nordeste são construídas em torno de heterogeneidades, embora as instâncias de institucionalização da festa convirjam para um bloco imagético-significativo unitário. As heterogeneidades da festa junina aparecem de maneira dispersa sob diversos elementos e formas, passando por vários desdobramentos de sentido para se constituírem em um bloco unitário. A polissemia de sentidos emerge a partir do cruzamento dos símbolos que formam a imagem da festa. As significações no presente mesclam-se com pedaços de histórias do passado, com elementos míticos e históricos.

Dessa forma, diversos universos relacionam-se e complementam-se e compartilham os significados que circulam através do consumo da alimentação, do vestuário, da cultura e de seus imaginários. Através das imagens, o cenário da festa congrega diferentes temporalidades. Nele, presente e passado, sua simulação funciona, simbolicamente, como um amálgama que liga e aproxima imaginariamente as pessoas, seus laços identitários com o local, com a região e com as gerações passadas, atravessando a história, fortalecendo o sentimento de pertença do grupo pela manutenção e pelo reforço das tradições e do imaginário social.
O Maior São João do Mundo é um instrumento de poder, uma fórmula que os grupos locais e regionais encontraram para impor a sua imagem e a dos nordestinos aos outros: ao Sul, ao Sudeste... ao Brasil. Essa estratégia de dominação política, que controla o imaginário coletivo e coloca a elite local na perspectiva de guardiões da tradição e da cultura nordestina, é hegemônica, pois possibilita a manutenção e a continuidade das relações de poder locais e regionais.
A festa junina é fruto do hibridismo e dos descompassos entre projetos heterogêneos. Nesse processo, elementos contínuos e descontínuos, diversificações de sentido que se encontram e que se entrelaçam, compõem assim a cadeia significativa da festa. Por isso, não se pode falar em uma imagem ou configuração unitária da festa junina; ao contrário, é com base na heteronomia das imagens que proliferam os sentidos e que se assenta a imagem unitária da festa.
Assim, o projeto modernizador da festa, representado pelo Maior São João do Mundo, de resgate da tradição, do passado, das raízes identitárias e dos valores da cultura nordestina, transforma-se e é reelaborado, recriado, reinventado e inventado com base no hibridismo cultural.

12.06.2012

 

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